INÊS PUCARINHO SOBRE João Fortuna, 2019
Artigo, Escrita de artigo
Editado e publicado por Revista FOmE, Vol. II
Revista FOmE vol. II
Israel; Jordânia; Palestina; descontentamento; culturas; caos; origens; Almada; evolução; maciços; imensidão; madeiras; fotografias; histórias; encenações; visões; arte antiga; contemporânea; matérias; tridimensionalidade; contradições; extremismos; obsessão; violência; busca pela paz; o lixo; cimento; super ocupação; retirada do ar; dor; medo; preconceito; males; excesso de mundo; João Fortuna.
Procura sempre fazer pelo menos uma viagem por ano, Israel foi o seu destino acerca de um ano e meio atrás, ele e a sua namorada, não foi no entanto, o que esperavam e por isso andaram também pela Jordânia e pela Palestina.
Talvez o descontentamento com o destino, a ambiência dos lugares, a sensação de chocar com novas culturas e paisagens, estes caos, tenham sido o mote para o artista começar a construir o imaginário patente nas suas obras.
No seu passado estão origens em Valência do Minho, História de Arte em Coimbra, uma temporada em Granada, um mestrado iniciado em Museologia e um pai fotógrafo.
Em Lisboa trabalha num café aos fins de semana, antes estava a tempo inteiro mas a decisão de lhe faltarem horas para se dedicar a quem é, apareceu felizmente no seu caminho. Assim durante a semana está no seu atelier em Almada, cidade onde vive com amigos e companheira, e dois cães que lhe ajudam na rotina diária, obrigando-o a sair do estúdio para uma volta, a passar pela tasca para alimento e dois dedos de conversa.
Quando fui ao seu estúdio em talvez pouco mais do que uma breve hora, observei o seu processo, os seus trabalhos mais antigos e a evolução de um artista até às suas mais recentes obras.
Os seus quadros são maciços, literalmente, são construídos por layers de madeira onde em cada um destes, estão colagens de uma imensidão de imagens que o artista busca na internet, ou que o próprio encena e fotografa. É ele o responsável por todo o processo, desde o tratamento das imagens, ao corte das madeiras, as fotografias são impressas em rolo num estúdio em Lisboa ou no estúdio do seu pai no norte do país, a assemblagem morosa de todo este processo enriquece oceanicamente as peças, até porque é o próprio que me diz, que durante todo este tempo em que o puzzle nasce e se transforma, a obra inicia-se num conceito ou numa ideia, mas que quase sempre se desenvolvem outras histórias, encenações e visões do mundo interno e externo, é no fundo, o artista a ser submerso por si próprio.
A sua linguagem é construída em múltiplas camadas, a primeira vem se calhar de uma mente muito teórica e bêbeda do conhecimento adquirido sobre arte antiga e contemporânea, desmultiplicando-se depois numa execução prática, apaixonada pelo contacto com as matérias. Estas camadas representam-se plasticamente pela tridimensionalidade dos quadros, que se constroem de contradições, vemo-las nas figuras que as compõem, que falam de extremismos, sentimo-los na sua obsessão de preencher todos os espaços com mais e mais; vemos nelas a violência ao lado da busca pela paz, o lixo como objeto e o lixo humano, carregamos o peso do cimento numa super ocupação do espaço, a retirada do ar para sublinhar a dor, o medo e o preconceito, a negritude da sua edição do mundo, para nos forçar a pensar em todos os males, todos sim, disse todos e são muitos. As obram desafiam o nosso olhar a percorrer cada pedaço, a parar por muito tempo em contemplação, pois estamos perante uma desregrada exposição ao excesso de informação, ao excesso de mundo.
João Fortuna foi o artista com quem me encontrei, ele que valida o seu trabalho numa renovação da técnica, ele que também já se encontrou artisticamente, aquele que estão vocês a encontrar agora e que o mundo precisa sabê-lo.